Pirão de Parida Tradição, afeto e resistência
Eu, como nativa biribanda que sou de Trancoso, sempre me surpreendo com as mudanças que ocorrem nesse povoado. Encontrar famílias que resistem e mantêm tradições me traz alegria e esperança de que esses costumes sejam passados adiante e que a essência do lugar não se perca.
Meus pais chegaram aqui no começo da década de 1970, em busca de conexões verdadeiras com a natureza e a comunidade. Foram muito bem recebidos e logo estavam instalados em uma das casas do Quadrado, que na época abrigava poucas famílias, a maioria dividindo o tempo entre suas casas na roça e o vilarejo.
As casas do Quadrado eram habitadas principalmente durante os festejos – São Sebastião, São Brás, Festa do Divino, São João – celebrações que sempre fizeram parte do calendário do povoado. A troca entre os moradores, a generosidade e o desprendimento eram valores essenciais.
Minhas primeiras lembranças afetivas envolvem alimentos. Sempre fui apaixonada por comida o que me levou a me profissionalizar em gastronomia e atuar por 11 anos dentro de cozinhas mundo afora. Hoje, já afastada das cozinhas profissionais, meu amor pela culinária continua, e meu maior interesse são as comidas de tradição.
Entre minhas memórias está a primeira vez que comi pirão de parida, acompanhado de uma bela cachaça temperada, na celebração do nascimento da filha de um amigo. Eu já era adolescente, quase adulta, e estava morando novamente aqui depois de anos. Achei aquilo tão fantástico, tão saboroso e tão receptivo, que me marcou profundamente. Desde então, a galinhada acompanhada de pirão de parida se tornou um dos meus pratos favoritos.
O pirão, preparado com o caldo de galinha caipira, engrossado com farinha de mandioca, era servido às mães, junto com a galinhada, para fortalecer o corpo após o parto. Mais do que um alimento nutritivo, fazia parte de um cuidado maior com a mulher que acabava de dar à luz. A parteira chegava antes do bebê nascer e só ia embora depois que a mãe já tinha passado pelo resguardo. Entre os cuidados além pirão de parida, preparado com especiarias que ajudavam a mãe a recuperar as forças, tinha a temperada, banhos e massagens com óleos e plantas. Esse hábito de oferecer essa comida substanciosa e a cachaça temperada para a recém-parida se estendeu aos que iam visitar o novo membro da comunidade, tornando-se um símbolo de celebração e união.
A tradição ainda segue em algumas famílias e foi essa curiosidade que me levou a visitar Silvana, cozinheira de mão cheia, uma das poucas nativas que ainda mantêm comércio no Quadrado. Ela é uma guardiã dos sabores e saberes ancestrais, mantendo viva a resistência cultural em meio à crescente gentrificação da região. Sentada à sua mesa, enquanto o cheiro do pirão fumegava no fogão, conversamos sobre o tempo, sobre meus pais, que ela conheceu quando bem jovem, sobre como Trancoso mudou e sobre como algumas tradições estão desaparecendo.
Para ela, cozinhar esse prato não é apenas uma forma de alimentar o corpo, mas de manter um fio de conexão com o passado, com os que vieram antes de nós e com os saberes que nos fazem quem somos.
Ao provar seu pirão, senti aquele mesmo conforto da primeira vez. O caldo encorpado, o sabor profundo da galinha caipira e a farinha que dá corpo ao prato me transportou para um tempo que, de alguma forma, ressoa em mim. Ali, entre uma colherada e outra, percebi que resistir também pode ser um ato simples: manter viva a memória de um prato, contar suas histórias e compartilhar seus sabores.
Trancoso mudou, mas enquanto houver quem cozinhe com a alma e conte suas histórias com paixão, suas raízes seguirão firmes. E o pirão de parida, com sua carga de afeto e tradição, continuará a ser um dos símbolos da nossa identidade, resistindo ao tempo e às mudanças.
Assine nossa newsletter
Inscreva-se e não perca nada